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19 Maio, 2008

Entrevista com Dr. Daniel Doro Ferrante

Hoje, dia 19 de maio, é dia do físico. Uma profissão pouco conhecida, mas que já se mostrou essencial para o progresso da humanidade. Por causa do dia, preparei uma entrevista com um físico.

Esse post faz parte da Blogagem Coletiva promovida pela n-Dimensional:

http://ndimensional.wordpress.com/2008/05/19/059/

Pela primeira vez se tem uma entrevista nesse blog e espero não ser a única. O entrevistado é Dr. Daniel Doro Ferrante, professor em Brown University e pesquisador no Department of Physics na mesma universidade.

Dr. Daniel, você mora a alguns anos fora do Brasil. Como a produção científica brasileira, em física, é vista no exterior?

Eu acho que essa pergunta pode ser "perigosa", no seguinte sentido: o que a minha experiência tem mostrado (e isso claramente pode variar de pessoa para pessoa) é que, em geral, não costuma ser importante a 'origem' da produção científica, i.e., artigos de qualidade acabam sendo notados (numa espécie de "bubble sort evolucionário"). Por outro lado, é verdade que trabalhos advindos de instituições de renome são sempre mais "fashion" (mais "na moda") do que outros; mas essa é uma característica geral de qualquer grupo de seres humanos, não é algo particular da Física. O que é particular da Física (e de outras ciências também) é o fato de sempre se tentar, consciente e racionalmente, ser meritocrático, i.e., é o fato de estarmos sempre tentando limpar esses "viés" que temos aqui e ali.

Nesse sentido, a produção científica brasileira é vista assim como as outras: o que é bom é reconhecido como tal e o que não o é também. As "flutuações" acontecem sempre e a gente tem que prestar atenção e ficar atento pra não perder de vista o objetivo maior da ciência.

A física tem importância fundamental na produção de tecnologia, mas seu papel é pouco divulgado. Poderia esclarecer como a física contribui para produção de novas tecnologias?

Essa é uma pergunta um pouco complicada simplesmente porque as áreas de atuação dum Físico cobrem um espectro muito grande: hoje em dia você pode ir desde nanotecnologia e ciência dos materiais até econofísica! Então, desde novos materiais para computadores, carros híbridos e multi-flex até tecnologias financeiras e estratégias de mercado ("hedge funds").

Pessoalmente, eu acho que o grande truque, o "pulo-do-gato", da Ciência é que *nunca* se sabe como é que um determinado conhecimento poderá ser usado para gerar tecnologia! Mas, via de regra, quando se fala que "não se sabe" algo, isso é visto de modo derrogatório ao invés de ser visto com aquele friozinho-na-barriga que essa aventura do aprendizado humano requer. As pessoas costumam gostar de certa "estabilidade", "solidez"... e, por definição, isso não existe em ciência; logo, é muito difícil de se "prever" qualquer acontecimento tecnológico — mas, por outro lado, essa aparente "incerteza" causa um certo desconforto (o que costuma ser a causa de tantos problemas para o patrocínio científico).

Portanto, eu acho que a única maneira de se responder apropriadamente essa questão é melhorando o nível de educação e instrução da população de forma que essa dinâmica que eu resumi acima possa ser entendida e valorizada pelo que ela é. De qualquer forma, dá pra se usar um ingrediente e indicador econômico bem claro: todos os países desenvolvidos têm um programa bem racional de ciência básica e fundamental. E isso já deveria ser um argumento mais-do-que-sólido.

De forma geral, de acordo com sua experiência, como você vê o relacionamento do físico com a sociedade?

Não sei direito o que responder aqui... e a razão disso é de que eu acredito haver muitos estereótipos escondidos nessa pergunta. Veja, por exemplo, eu pessoalmente tenho uma relação que considero boa com a "sociedade", meu orientador também (tanto que toda semana recebemos vários alunos do colegial e do bacharelado em busca de direção e de respostas científicas — isso pra não falar nos emails).

Nesse sentido, eu acho que a relação dos físicos, em geral, com a sociedade é tão boa quanto a de qualquer outra área do saber: economistas, engenheiros, advogados, médicos, etc. A grande diferença que eu vejo é a seguinte: a Física está, infelizmente, muito "removida" do dia-a-dia das pessoas, i.e., elas tendem a considerar a Física (e, por tabela, os Físicos) como algo abstrato, etéreo, imaterial. E isso acaba completamente com qualquer "relação social" que possa haver. Veja, uma coisa é você construir algo, botar um prego aqui ou ali, montar um computador e fazer funcionar, etc, outra coisa bem diferente é você abstrair tudo isso e trabalhar nesse campo mais "rarefeito": tudo se torna mais trabalhoso de ser explicado e entendido.

Então, eu acho que quando essa percepção mudar, a interação social só terá a ganhar.

Poderia dar uma breve descrição de como é seu trabalho?

Nada muito mágico: das 08:00h às 17:00h são aulas, alunos, plantões de dúvidas, orientações, etc, etc, etc... e, além disso, a pesquisa propriamente dita. Mas, essa não costuma obedecer aos horários de modo equilibrado!

Como físico de altas energias, quais suas expectativas quanto aos resultados que serão obtidos no LHC?

No mínimo, eu espero que o LHC encontre o "Guralnik-Hagen-Kibble-Higgs-Brout-Englert"! Eu acho que encontrar a tal "Partícula de Deus" (vulgarmente conhecido como "Bóson
de Higgs", apesar de ter sido descoberto por esses 6 pesquisadores independentemente — organizados nos seguintes grupos: "Guralnik, Hagen e Kibble", "Higgs" e "Brout e Englert") não vai causar grandes problemas, até porque o Fermilab (Tevatron) já "mirou bem mirado" nele (acho que eles estão com precisão entre 4-5sigma).

Fora isso, o céu é o limite! O LHC é, de verdade, um grande produtor de glúons... e, nesse sentido, não se sabe ao certo o que pode aparecer, mas o que vier é lucro!

O Fermilab e outros laboratórios de física dos EUA sofreram cortes em seus orçamentos esse ano. Você acha que esses cortes vêm de algum descaso do governo com a pesquisa básica?

TODOS os laboratórios nacionais/federais aqui dos USA sofreram cortes, irrestritamente. Na verdade, o que aconteceu é que todo o "budget" (me desculpe pelo uso esporádico desses termos em inglês; é que, às vezes, me falta o termo em português; você pode traduzir como melhor quiser) de ciência norte-americano sofreu um corte muito maior do que o esperado: no começo do ano o presidente prometeu um aumento de ~10% e, quando o "budget" (orçamento?) foi liberado, não só não havia o aumento prometido como houve um corte de ~10% — ou seja, uma variação real de ~20% (porque muito daquele aumento prometido já estava comprometido! — aqui se leva o presidente a sério quando ele faz ou promete alguma coisa)!

Veja só esse artigo que acabou de sair: "Leaps of faith" ,
http://www.theglobeandmail.com/servlet/story/RTGAM.20080423.rminnolaz0423/BNStory/Technology
. (Para mais uma opinião sobre esse assunto, dê uma olhada nesse blog post: http://physicsandphysicists.blogspot.com/2008/04/leaps-of-faith.html
)

Opinar sobre isso é muito complicado. Que há uma parte de descaso é claro: quando você tem [arguably] a melhor máquina científica do mundo, por que você a deixaria ir pro buraco?! Pior do que simplesmente não fazer sentido, não tem o menor cabimento.

Mas, de verdade, é pior do que isso: veja, em países própria e devidamente industrializados, é sabido e solidificado que é ao redor de grandes pólos educacionais que a "economia do futuro" nasce. Ou seja, as chamadas "indústrias de alta tecnologia" têm como berço as grandes universidades. Exemplos claros disso são o "Silicon Valley" (California: as diversas 'UC' (UCLA, UCSB,…), San Francisco, etc) e o "Route 128" (aqui em New England: Harvard, MIT, Brown, etc): é assim que nascem lugares como o "Bell Labs", a divisão de pesquisa da IBM, e assim por diante. Porém, como você vê, é preciso uma colaboração e uma parceria escola-empresa muito bem estabelecida e equilibrada.

Então, um "descaso com a pesquisa básica" é algo infinitamente pior do que costuma se dizer por aí: em geral, esse é o tipo de comportamento que sufoca e mata a economia endógena, orgânica, de um país! Claro, afinal de contas se pára de produzir tecnologia própria e se começa a importar tecnologia — e não há nada mais caro do que isso (geração de empregos, exportação de serviços, etc…).

Ou seja, a coisa é bem pior do que parece…

Você disse que os países mais desenvolvidos possuem bons programas de ciência básica. Você acha que maiores investimentos na pesquisa básica podem ser vantajosos para países como o Brasil?

Bom, agora, depois do que já foi dito acima, acho que fica fácil de ver qual é a resposta pra essa questão, não?!

Investimento em Ciência Básica necessariamente implica em melhores investimentos em educação e assim por diante. Dessa forma, você não só levanta e ergue a economia do país como também prepara toda a infra-estrutura necessária para a manutenção do arcabouço que está sendo criado! Ou seja, não há como dar errado!

Mas, infelizmente, a coisa não é tão simples de ser estabelecida concretamente quanto pode parecer. Porém, de verdade, não é necessário muito mais do que *vontade*política*: Se houver vontade política, certamente haverá resultados!

Em alguns estados dos EUA, uma disciplina chamada “Desenho Inteligente” é ensinada nos colégios como sendo ciência. Para muitos é um criacionismo disfarçado. Qual sua opinião sobre esse assunto?

Infelizmente, por mais controverso que esse tópico possa parecer, o "Design Inteligente" não passa duma coleção muito pobre de proto-idéias. Na verdade, essa questão nem controversa é, o que de fato acontece é que ela é formulada de forma a parecer assim; i.e., na linguagem do jargão jornalístico, é uma questão de "framing": o interlocutor "escolhe" o "spin" que quiser. É absolutamente possível de se esmiuçar esse assunto de forma a apresentá-lo de modo muito claro e concreto (esses são os pontos fundamentais, essas são as conclusões, é assim que você conecta as conclusões às premissas originais, etc) — porém, infelizmente, quando se *escolhe* se apresentar esse assunto de outra maneira, isso é feito de modo a turvar a problemática em questão e, portanto, caracterizá-la ("frame it") como "controversa". Não existe controvérsia aqui: opinião é uma questão de foro pessoal e íntimo, logo, cada pessoa tem a sua — não há controvérsia. Portanto, só há discussões a serem travadas quando o assunto em questão ainda não foi devidamente entendido. Infelizmente, não é o caso aqui: os assuntos em pauta são bem claros e entendidos, colocá-los ("frame them") sob uma perspectiva ("spin") obscura, que faz parecer que há "dúvidas" pairando no ar, é, no mínimo, uma *impostura* [intelectual]. Porém, como nós bem sabemos, *honestidade*intelectual* é um bem raro, geralmente sujeito à manipulações políticas.

Quando ao "DI" propriamente dito, eu penso o seguinte: Eles pregam a existência de um "ser supremo", "criador do Universo" — não diferentemente daquilo que é feito por diversas religiões, cultos e sectos pelo mundo afora. Logo, eu acredito que se uma comunidade deseja ensinar esse tipo de crença, por uma questão de *democracia* e de *liberdade*de*pensamento*e*escolha*, seria desejável que se ensinasse sobre *todos* os "mitos de criação" existentes em *todas* as religiões e filosofias disponíveis atualmente (do tronco judaico-cristão-islâmico até as filosofias orientais, como taoísmo, budismo, passando por xamanismo e afins)! Claro, essa escolha depende da *homogeneidade* da população: se você tem uma população onde *todos* os membros seguem uma determinada escolha, eu não vejo problemas nessa comunidade escolher apenas ensinar aquilo que acredita — claro, é detrimental para as crianças, que não vão aprender sobre visões diferentes as expostas, mas é uma escolha que faz sentido. Porém, eu não conheço escolas que atendam grupos tão homogêneos de pessoas; logo, não há nada mais natural do que se dar *liberdade*de*escolha* às crianças que as freqüentam, ensinando-se sobre *tudo* que há
disponível pelo mundo afora.

Como você vê isso tudo é bastante claro e pode ser facilmente tratado de modo racional, com calma, paciência e cuidado para que todas as questões "implícitas" sejam tratadas com o carinho que merecem.

Fora isso, é preciso se lembrar dum "detalhe" não tão pequeno assim: Filosofia das Religiões, Antropologia das Religiões e Sociologia das Religiões! Por que é que esse conhecimento não está sendo discutido?! Por que é que não se está levantando questões ligadas ao conhecimento pertinente a essas áreas do saber?!

Então, *não* há polêmica, há sim muita desinformação — e isso é um problema: "Como é possível se fazer uma escolha apropriada se há tanto ainda pra ser discutido e levantado?!" É por essa, e tantas outras, que eu acho que o "DI" não passa de 'impostura intelectual'. No dia em que eu os vir discutindo toda essa problemática de modo aberto e sereno, incluindo todos esses ingredientes, aí sim eu terei uma imagem mais positiva do "DI".

Existe divulgação científica por vários meios de comunicação (desde leituras até vídeos, embora sejam mal divulgados), mas também existe, por esses mesmos meios, a chamada pseudociência. Como um leigo pode perceber se o que ele está lendo ou assistindo é divulgação científica ou apenas embuste? Existe algo, além do conhecimento técnico, que possa denunciar a natureza do conteúdo?

Realmente, essa é uma daquelas "perguntinhas capciosas".

É difícil… mas, que fique bem claro: muitas vezes é difícil pra quem tem o conhecimento "técnico" também! Ou seja, não é fácil pra ninguém; só que algumas pessoas tiveram um treinamento mais "especializado" que, com sorte, fará com que elas possam ter uma facilidade maior em fazer tal avaliação. Mas, não se engane: "Acontecem erros dos dois lados dessa cerca."

Então, acho que o melhor que posso te dizer é o que funciona pra mim, como eu faço esse discernimento. Só que eu vou dividir meu método em duas partes: quando eu lido com assuntos que eu conheço detalhadamente, e quando eu lido com assuntos que eu não conheço tão profundamente assim.

Quando você conhece um assunto em profundidade, pode ser mais fácil de se discernir o que é embuste daquilo que tem conteúdo científico. O caminho é simples: basta você comparar o conhecimento que você já tem, sólido e robusto, com a novidade que está sendo exposta; e "comparar”, raciocinando sobre as possíveis hipóteses onde ambos estariam em conflito. Aliás, nesse sentido, esse é um dos princípios mais fundamentais do "processo científico": tudo que é novo é avaliado ao extremo escrutínio, buscando por toda e qualquer forma de "conflito" com o conhecimento pré-estabelecido. Essa é a mentalidade científica, é assim que se "acumula" conhecimento de modo científico, não-aleatório: você sempre compara o novo com aquilo que já existe e já está devidamente estabelecido e corroborado [experimentalmente].

Agora, quando você não é um especialista num determinado assunto, avaliar a validade do mesmo pode parecer mais complicado; porém, o processo não é muito diferente do acima. O único ingrediente extra (i.e., além do que foi exposto acima) é a habilidade de esmiuçar, de
"quebrar em menores partes", o que está sendo exposto. E, uma vez que a nova proposta foi devidamente "detalhada", i.e., teve seus detalhes expostos de forma mais clara, fica mais fácil de aplicar o método descrito acima: basta comparar cada um desses novos detalhes com o conhecimento pré-existente.

Mas, pra isso, é preciso se ter um espírito que não deixa a *curiosidade* morrer, i.e., é preciso se ter aquele sentimento de "busca para sanar a dúvida". O que costuma ser fatal nessa questão que você fez é a "aceitação", no sentido de se simplesmente "aceitar" aquilo que está sendo exposto. Claro, não é uma questão de apenas se duvidar para se ser do contra. Mas, é uma questão de se manter a mente aberta, apesar de se manter o espírito crítico bem afiado.

Muito obrigado pelas respostas. Quer dar alguma declaração final?

Eu gostaria de agradecer a oportunidade que você me deu, Ivan: "Muito Obrigado!"

No mais, eu espero que o futuro nos guarde surpresas saborosas, com uma participação cada vez maior dos cientistas na comunidade, com uma penetração social cada vez mais eficiente, para podermos caminhar na direção de respostas mais racionais e mais justas para todos nós.


5 comentários:

Ravick disse...

Grande Ivan!

Ótima entevista! Fabulosa idéia para o Blog!

Fiquei pasmo ao saber do "corte" nas pesquisas americanas quando se esperava mais verbas...

E parabéns ao Dr. Ferrante (embora eu não possa deixar de pensar em conotações cômicas para com tal nome...) por sua clareza de idéias e pelo modo não "elitista" de encarar os 'saberes' não científicos (e sem perder a coerência!)

Keep this blog on!!!!

Francisco disse...

Ótima entrevista.

VAMOS ABRIR A MÃO, EUA!

Lorena Peixoto disse...

Daniel sempre traz informações importantes a serem discutidas, é bom saber que existem pessos assim!
O blog está de parabéns, as perguntas foram bem elaboradas!

--> na comunidade de física do orkut, o Daniel Doro costuma dar participações muito relevantes:
http://www.orkut.co.in/Community.aspx?cmm=40685

dinael disse...

Parabéns pela entrevista , muito boa as respostas do Dr. Ferrante.

Patricia disse...

Ivan obrigada por postar idéias tão utéis ao conhecimento de todos.